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  • Espada y Evangelho

    Espada y Evangelho

    Fernando Nascimento

    Quando as

    caravelas cruzaram o oceano,

    carregavam dois instrumentos afiados...

    a espada

    de aço...

    e a espada de papel.

    A Bíblia e o latifúndio...

    nasceram gêmeos.

    1500 no horizonte, dois cortes num só gesto: aço no pescoço,

    papel no resto. Não vieram só pelo ouro — vieram pela cosmologia,

    incendiaram pirâmides de conhecimento,

    queimaram cada poesia. Calendário maia proibido,

    medicina de pajé chamada de pecado,

    teologia dos Orixás torturada até virar pecado sagrado.

    Não foi evangelização — foi apagamento programado,

    pra plantar no cérebro alheio o maior latifúndio já registrado!

    Latifúndio Mental: terra de alma cercada por arame farpado,

    onde o pensamento indígena foi proibido de ser plantado!

    Roubaram a terra e chamaram os despojados de atrasados!

    Roubaram a riqueza e chamaram a miséria de destino!

    Roubaram a alma e chamaram de salvação!

    E o crime mais perfeito da história...

    ainda paga dividendos!

    Espada e evangelho!

    (hey!) Espada e evangelho! (hey!)

    Dois cortes do mesmo golpe,

    um só senhorio!

    Espada e evangelho!

    (hey!) Espada e evangelho!

    (hey!) Roubaram o ouro,

    a terra, a alma — e eu vim cobrar o meu!

    Devolve o ouro! Devolve a terra!

    Devolve o sagrado! O latifúndio mental cai quando o povo acorda armado...

    armado de memória! Armado de memória!

    Crime perfeito:

    o ladrão escreveu o código penal!

    A vítima aprendeu a rezar pro algoz em nome paternal!

    Chamaram subdesenvolvido quem desenvolveu por milênios,

    chamaram descoberta o saque,

    chamaram ordem o veneno!

    A espada saqueou o corpo,

    o papel saqueou a mente,

    um roubo em dupla assinatura — tratado,

    cruz e documento urgente!

    Mas a memória não morre: ela dorme sob a cinza,

    e quando o povo desperta,

    a história recomeça sem tiranos de igreja e cinza!

    O rio ainda lembra o nome que deram ao mundo,

    a floresta ainda guarda o chão de antigos povos sãos.

    O tambor que tentaram calar ainda pulsa no fundo — e cada

    batida é um veredito: nós não fomos vencidos,

    fomos adiados.

    E o adiamento acabou.

    O adiamento acabou.

    Pirâmide! (Reconstrói!) Calendário! (Reconstrói!) Medicina!

    (Reconstrói!) Teologia! (Reconstrói!) Nada foi descoberto — tudo foi saqueado!

    Nada foi civilizado — tudo foi domado!

    Mas o latifúndio mental tem prazo de validade: quando o colonizado desperta...

    vira colono da realidade!

    Espada e evangelho! (hey!) Espada e evangelho! (hey!)

    Dois cortes do mesmo golpe,

    um só senhorio!

    Espada e evangelho! (hey!) Espada e evangelho!

    (hey!) Roubaram o ouro,

    a terra, a alma — e eu vim cobrar o meu!

    Devolve o ouro! Devolve a terra!

    Devolve o sagrado! O latifúndio mental cai quando o povo acorda armado...

    armado de memória!

    Armado de memória!

    O ladrão escreveu o código penal...

    mas esqueceu de uma cláusula:

    a memória dos povos...

    não tem prescrição.

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