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    Tirano de Papel

    Fernando Nascimento

    Que estranho paradoxo...

    um ser onipotente... que morre de medo do comunismo?

    (shhh) Um deus supremo...

    que precisa de exército pra se defender...

    de uma pergunta?

    Governa sem corpo, castiga sem tribunal,

    escraviza prometendo liberdade no céu — manual do carnaval!

    O deus verdadeiro não temeria dúvidas — as dúvidas seriam seus filhos,

    mas esse daqui se apavora com quem pensa,

    racha e solta os nós que o mantêm cativo.

    Teme a ciência que explica o que ele vendeu como milagre,

    teme o coletivo que dissolve a obediência do sujeito isolado,

    frágil e frágil.

    Teme o índio que recusa o batismo e o negro que dança

    seu tambor

    — um deus com medo do povo é deus de quem tem

    medo,

    e eu não tenho mais!

    Se precisa de igreja pra existir,

    se precisa de censura pra durar,

    se precisa de exército pra se defender...

    então não é deus — é rei,

    é estado, é poder!

    O trono de papel queima no primeiro incêndio de dúvida — e

    eu trago o fósforo,

    e eu trago a pergunta,

    e eu trago a multidão!

    O tirano que teme perguntas não é deus — é dono!

    (não é deus, é dono!) O tirano que teme perguntas não é

    deus — é dono!

    (não é deus, é dono!) Governa sem corpo,

    escraviza sem corrente visível,

    mas a mente que se liberta não volta a ser servil!

    O tirano que teme perguntas não é deus — é dono!

    (não é deus, é dono!)

    O mais sutil dos tiranos: não bate,

    não prende, não aparece — habita o medo herdado,

    o pecado inventado, a culpa que não se esquece.

    Não precisa de soldado quando a vítima é o próprio carcereiro,

    não precisa de grade quando a alma se tranca sozinha no compartilhar

    e no dinheiro. Mas chega uma hora em que o silêncio pesa

    mais que a maldição,

    em que o homem olha pro espelho e pergunta: quem lucra com

    a minha prisão? E a resposta vem do lado de fora,

    vem da rua, vem do chão: deus nenhum que teme o povo...

    jamais foi deus — foi opressão!

    As dúvidas seriam seus filhos legítimos — se ele fosse de verdade.

    As perguntas seriam suas filhas — se ele existisse de verdade.

    But o céu ficou vazio,

    e a resposta não chegou,

    e o que desceu foi só o eco...

    do medo que o homem criou.

    Então eu escolho a terra,

    escolho o povo, escolho o tambor,

    a ciência que ilumina,

    o coletivo que apavora o senhor.

    Pergunta! (Pergunta!) Dúvida! (Dúvida!) Pensa!

    (Pensa!) Luta! (Luta!) O tirano mais perigoso é aquele que se veste

    de luz! Pergunta! (Pergunta!) Dúvida!

    (Dúvida!) Pensa! (Pensa!) Luta!

    (Luta!) Nenhum deus verdadeiro teria medo...

    de ser questionado!

    O tirano que teme perguntas não é deus — é dono!

    (não é deus, é dono!) O tirano que teme perguntas não é

    deus — é dono!

    (não é deus, é dono!)

    Governa sem corpo, escraviza sem corrente visível,

    mas a mente que se liberta não volta a ser servil!

    O tirano que teme perguntas não é deus — é dono!

    (não é deus, é dono!)

    Tirano nenhum suporta ser questionado...

    e o povo que aprende a perguntar...

    jamais será governado. (jamais será governado...) (governado...) (governado...)

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