

Hoje olhei tua fotografia
e alguma coisa enfim
se abriu
Não era por ti que eu caía era pelo nome que te
dei
em silêncio fui talhando ausências
na pedra funda do que sonhei
fiz do vazio uma promessa
fiz do desejo uma feição
e sem notar beijei a imagem
nascida da minha invenção
Como um escultor diante da forma
eu me curvei ao que criei
mas nenhuma chama veio à matéria
ninguém viveu no que inventei
Eu não amei quem eras amei a forma que eu te dei
tão perfeita para ser humana
tão distante do que é real
minha dor nasceu da obra que minhas mãos quiseram salvar
chamei de amor o meu apego
ao que não podia respirar
Agora eu vejo a tua face
sem o mármore da idealização
há carne e falha no teu gesto há tua verdade,
não a minha visão
e nisso existe uma beleza
menos brilhante, muito mais fiel
o que eu perdi foi a miragem
não a pessoa diante do papel
Deixo cair o peso do cinzel
deixo partir o sonho sem altar se algo em mim ainda te
procura
é só para enfim te libertar Eu não amei quem eras amei
a forma que eu te dei tão perfeita para ser humana tão
distante do que é real minha dor nasceu da obra que minhas
mãos quiseram salvar chamei de amor o meu apego
ao que não podia respirar
Hoje olhei
tua fotografia
e vi você, não o que sonhei